Moussia e o prazer da experimentação

Stella Teixeira de Barros

Nascida em Sebastopol, ao sul do império czarista, Moussia von Riesenkampf começou a se interessar bem cedo pela pintura e, de início,pela aquarela. Logo após a Revolução,com o falecimento dos seus pais, saiu do país pela Turquia, com destino a Paris, onde permaneceu por algum tempo. Pouco depois, seguiu para Hamburgo, onde, por um dos improváveis acasos do destino, conheceu o jovem intelectual Carlos Pinto Alves ( 1899-1966), com quem se casou ainda naquele mesmo ano de 1923, em Lisboa. 

 

Tão logo chegou a São Paulo, Moussia Pinto Alves, com uma bagagem cosmopolita na área artística, rapidamente se integrou no meio que agitava nossos primeiros modernistas. A Semana de 22 já havia ocorrido no ano anterior e - embora os sinais de atividade ainda não fossem muito evidentes, pouco a pouco cresciam as adesões à onda modernizante - a artista começou a participar ativamente da efervescência cultural paulistana que expandia.

Desde então, a casa da rua Barão de Piracicaba, em que o jovem casal vivia, tornou-se um ponto assíduo de reuniões, não apenas de modernistas brasileiros, mas também de estrangeiros que aqui viriam aportar de passagem, como Alexander Calder, Henry Moore, o ator Jean-Louis Barrault ou, ainda, o colecionador ( e político) Nelson Rockefeller. Amigos da casa eram Mário de Andrade, Anita Malfatti, Noemia Mourão, Felícia Leiner e Bella Prado ( estas duas também artistas de origem eslava), Di Cavalcanti, Cicero Dias, Quirino da Silva, Djanira, Gomide, Brennand, Ungaretti, Murilo Mendes, Vieira da Silva e Arpad Szenes, Baby e Guilherme de Almeida, apenas para citar alguns. Soma-se ainda, o irmão de Guilherme, o também poeta Tácito, casado com a irmã de Moussia, Nina.

Em 1930 a artista realizou uma primeira apresentação de suas pinturas, ao lado de Regina Graz. Logo mais, Moussia participou da 38º Exposição Geral de Belas Artes, o polêmico Salão Revolucionário, organizado por Lucio Costa no Rio de Janeiro, em 1931. A seguir, a artista tomou parte nas demais mostras da agitada década de 1930, quando se registra um nítido aumento de agremiações artísticas, como o SPAM e o CAM; é o momento em que começam a ocorrer exposições bastante significativas, como as do próprio SPAM e, mais para o fim da década, a dos II e III Salões de Maio, que contaram com a participação de artistas europeus e americanos apresentando as primeiras obras abstratas vistas no país.

Sempre presente, Moussia a princípio se dedicou a uma pintura na maioria das vezes com forte entonação expressionista. No entanto, seus inúmeros retratos foram em outra direção: são quase ascéticos, e neles se destaca a grande singeleza, sempre sujeita à precisão da pincelada cuidada. Quase todos os retratos são frontais, as fisionomias sempre plácidas, talvez guardando uma vaga referência aos antigos ícones bizantinos, tão difundidos na Rússia ortodoxa e certamente incrustados na formação da artista. Vale lembrar que a qualidade desses retratos não passou despercebida a Mário de Andrade quem ,em carta a Manuel Bandeira, aludiu, em tom elogioso, à composição centralizada natural e ao fundo destituído de ornamentos.

 

No início dos anos 1940, alguns anos antes da fundação dos Museus( Masp, MAM-RJ, MAM-SP) por iniciativa dos grandes empresários, Moussia, influenciada por Ernesto de Fiori, começou a a se interessar pela escultura, obtendo resultados surpreendentes. Evoluiu para uma abstração com um viés de entonação lírica, em que formas se expandem e retraem por meio de volumes entremeados de vazios ocupados por matizes de luzes e sombras. Nessas esculturas, as figuras parecem se dissolver, numa sugestiva aproximação de Henry Moore, de quem se tornaria amiga.

Moussia, porém nunca chegou a abandonar a pintura. E, tanto na escultura como na pintura, embrenhou-se pelo campo da abstração, da qual A percepção lúcida. desde a primeira hora, dos novos caminhos que a arte abstrata abria permitiu-lhe desenvolver uma obra de vanguarda, tarefa que cumpriu com muito talento, com muita diversidade e variedade, o que desencadeou um espectro grande de abordagens, muitas vezes ultrapassando práticas tradicionais.

Em muitas das pinturas abstratas- e por vezes não so nestas, é possível perceber a organização espacial dinâmica, tensionada em movimentos relativos de cor e luz de coordenadas centrípetas pulsantes, determinadas talvez por um provável interesse de Moussia pelas diversas correntes artísticas das vanguardas russas, em especial o dinamismo raionista de Larionov e Gontcharova.

Na eferverscência desse período, Moussia expõe regularmente chegando a fazer uma mostra individual em Nova York em 1949, coisa rara naquele tempo em que uma oportunidade como essa era um privilégio quase inexequível. A seguir, marca presença nas sete primeiras bienais de São Paulo, por vezes apenas com esculturas,outras com pinturas, ou ainda com ambas. Coincide, nesses tempos, sua participação no projeto de construção da Capela do Cristo Operário, obra de ação comunitária na região do Ipiranga, coordenada pelo Frei João Baptista Pereira dos Santos e pelo artista e designer Geraldo de Barros. O projeto de militância social e ação pastoral girava em torno da fábrica de móveis modernos Unilabor -que funcionava num sistema de autogestão - e da capela. A capela contou com trabalhos de diversos artistas, como painéis de Volpi e Yolanda Mohalyi, vitrais de Volpi e de Geraldo de Barros, móveis deste - obviamente - e duas esculturas de Moussia em tamanho natural ( bastante altas, como sua autora), uma Madona e um São João Baptista. O paisagismo ficou por conta de Burle Marx.

Moussia retornou em diferentes momentos à figuração: costumes populares, vasos de flores, naturezas-mortas, paisagens, temas religiosos, futebol( que adorava), surfistas, impressões do cotidiano foram motivos abordados em busca da harmonia da luz, da cor e da forma, com a mesma energia plástica das estruturas abstratas. Sem temor de novas experiências, procurou se expressar por meio de diferentes materiais, não vacilando diante da precariedade de alguns deles, como a folha de flandres ou a prancha de isopor, que usou como base de diversas pinturas, em busca de novas texturas e outras formas de luminosidade. Não à toa, à liberdade de expressão aliou-se, na produção artística de Moussia, a ousadia, coo motivação de quem parecia sempre disposta a ultrapassar seus próprios limites.

Talvez por influência de Alexander "Sandy" Calder, que gostava de presentear os amigos com seus objetos que fazia com os mais prosaicos materiais, Moussia - que dele ganhou um delicioso broche feito de uma tira de prata que delineia um entorno de mão estirada ( como muitas que encontramos nas pinturas rupestres pré-históricas) - interessou-se pelo design de jóias, que considerava "obras plásticas derivadas da escultura). Ainda na década de 1950, começou a faze-las, também utilizando diferentes materiais. De início, a influência do amigo Sandy é evidente, mas rapidamente ela encontra o seu próprio caminho, recorrendo a uma condensação rimada de fios metálicos que se aglutinam e se entrelaçam em movimentos ordenados, por vezes abraçando num modelado orgânico uma ou até muitas pedras.

A partir do final da década de 1960, Moussia se muda repetidamente: vai para a avenida Angélica, primeiro para um prédio na esquina da rua Veiga Filho e, em seguida, para outro, projetado pelos irmãos Roberto na esquina da rua da Consolação (Edifício Anchieta). De uma ilhota inóspita no rio Paraíba, que comprara havia tempo e que acabou sendo inundada por uma obra da Cesp,conseguiu uma indenização por via judicial, porque lá ficara uma de suas esculturas, submergida; com isso pôde comprar uma casa em Paraty, fascinada pela encantador vila colonial, ainda preservada das hordas turísticas que não tardariam a chegar. Ali passou longas temporadas, antes de morar por alguns anos no Rio de janeiro nos anos 1970 e, por fim retornar a São Paulo no final da década. Nessas novas moradas, os atêlies eram pequenos, e Moussia abandonou a escultura, dedicando-se, a partir de então, quase que exclusivamente à pintura.

Bem sintomáticas são as incursões que Moussia fez no cinema, atuando poe duas vezes em pontas. em Brasil ano 2000, de Walter Lima Júnior, e Azyllo muito louco, de Nelson Pereira dos Santos, ambos rodados em Paraty. Também aqui está presente o processo inquieto de experimentação da artista, que não vacila diante de novos desafios dos afazeres artísticos. Há algo de incitante nessa maneira como sem preocupação com o resultante final, a artista apaga as fronteiras da linguagem e procura, na incorporação do novo, não apenas uma nova forma ou fórmula, mas a possibilidade de desabrochar a reflexão e estimular novos sentidos.

É importante dizer que artistas que tiveram reconhecimento em vida e depois perderam -às vezes por um  largo período - são muitos. E os motivos, quase sempre, injustificáveis. Se Moussia faz parte desse panteão, em parte é porque vivemos  num país muito afeito ao novo, o mais das vezes sem a devida perspicácia na própria maturação. Mas a história está cheia de casos extremos; por exemplo, sabemos que a posteridade de Shakespeare só possibilitou o retorno do Bardo aos palcos na segunda metade do século XVIII, graças aos românticos, devendo atenção,em especial, à crítica poderosa de Goethe. Bach também teve que aguardar e só voltou a ser tocado no início do século XIX. Até Mozart teve senões: Berlioz dizia não suportar suas óperas, achando-as todas iguais e vendo nelas apena uma beleza gelada e tediosa. Na história da pintura não são poucos os grandes artistas relegados a um esquecimento por vezes inexplicavelmente longo, como é o caso de El Geco, que veio a interessar somente quando os primeiros modernos o redescobriram. E nem mesmo o multifacetado Duchamp escapou, pois, até cerca de trinta anos atrás, não parecia ter nem de longe o prestigioso apreço com que hoje o brindamos.

 

É sem a preocupação de definir a dimensão da atuação de Moussia como artista e como partícipe dos movimentos culturais de sua época que cabe considerar que, na história da arte brasileira, ela ocupa uma posição singular: é a grande disponibilidade e sabedoria afetiva, mas também reflexiva, com que se apercebe do  processo em marcha da arte abstrata - com a qual manterá uma relação que não hesita em subverter - que demonstra por que ela soube desenvolver uma obra de vanguarda com múltiplas abordagens, implícita em seu impulso de experimentação. Atuação que cabe agora resgatar, num arco que abrande sua intensa atividade cultural, permeada por inegável qualidade plástica. Penso, parafraseando Murilo Mendes em Retratos relâmpagos, que a inaturalidade da obra de Moussia é provisória.